8 de janeiro de 2026

DBS: a cirurgia não é o fim da história

Muita gente acha que DBS é “faz a cirurgia e pronto”. Isso está incorreto.

A cirurgia é só o começo. DBS é um tratamento crônico, que exige acompanhamento, ajustes finos e tempo. Em troca, quando bem indicada, entrega algo raro no Parkinson avançado: controle estável dos sintomas e ganho real de qualidade de vida.

O que é DBS, em termos simples

DBS significa estimulação cerebral profunda. São eletrodos implantados em regiões específicas do cérebro que controlam o movimento. Esses eletrodos emitem estímulos elétricos contínuos para modular circuitos que estão funcionando mal.

Não “cura” Parkinson. Não interrompe a doença.

Mas melhora sintomas motores que já não respondem bem ao tratamento clínico isolado.

Para quem DBS funciona

Aqui está o ponto mais importante — e o mais ignorado.

DBS não é para todos. Funciona quando:

  • O diagnóstico é correto
  • Os sintomas são predominantemente motores
  • Há boa resposta prévia aos tratamentos convencionais
  • Não existem contraindicações cognitivas ou psiquiátricas relevantes

Quando a indicação é frouxa, o resultado é ruim. Simples assim.

O custo real da DBS (o que quase ninguém explica)

Outro erro comum: olhar só o preço da cirurgia.

A conta verdadeira inclui:

  • Avaliação detalhada pré-operatória
  • Cirurgia em centro altamente especializado
  • Programações frequentes no primeiro ano
  • Ajustes ao longo dos anos
  • Acompanhamento neurológico contínuo

Ou seja: DBS não acaba no centro cirúrgico.

Ela continua por anos — e isso custa tempo, estudo e investimento médico.

Então por que ainda vale a pena?

Porque, quando o paciente é bem indicado, o retorno é grande:

  • Menos flutuação motora
  • Redução importante da necessidade de medicações
  • Mais previsibilidade ao longo do dia
  • Mais autonomia
  • Menos dependência funcional

Com o tempo, as consultas tendem a ficar mais espaçadas, e o controle se mantém mais estável do que antes da cirurgia.

DBS é cara? Sim.

Mas aqui vai a parte contraintuitiva:

👉 Não fazer DBS, quando ela é indicada, costuma sair mais caro ao longo dos anos.

Sem cirurgia, o custo cresce:

  • Mais medicações
  • Doses cada vez mais frequentes
  • Combinações complexas
  • Mais efeitos colaterais
  • Mais quedas, internações e dependência

DBS tem custo alto no início. Depois, tende a estabilizar ou até reduzir o gasto global, além de devolver qualidade de vida — que não entra em planilha, mas muda tudo.

Conclusão

DBS não é solução mágica.

Não é simples.

Não é barata.

Mas, para o paciente certo, no momento certo, com acompanhamento sério, ela pode transformar a trajetória da doença.

O erro não é fazer DBS.

O erro é indicar mal — ou deixar de indicar quando já passou da hora.


Referências

  • Deuschl G et al. Deep brain stimulation: current challenges and future directions. Lancet Neurology.
  • Weaver FM et al. Bilateral deep brain stimulation vs best medical therapy. JAMA.
  • Bronstein JM et al. Deep brain stimulation for Parkinson disease. Archives of Neurology.
  • Movement Disorder Society. Evidence-Based Review of DBS in Parkinson’s Disease.